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Entrevista com Karl Bernhard Freitas Albrecht
Karl Bernhard Freitas Albrecht, o Nino tem 26 anos, é jogador do Desterro e está “emprestado” temporariamente ao time do Ruder Geselschaft Heidelberg (RGH) da cidade de Heidelberg, Alemanha, onde mora e estuda.

desterrorugby.com.br: Como está sendo esta experiência de jogar rugby na Alemanha?
Nino: Na verdade positiva e negativa, visto que indiscutivelmente a realidade em termos de infra-estrutura e apoio aqui é completamente outra e mostra que ainda temos muita coisa para fazer no Brasil e em Floripa, isso me deprime um pouco. Por outro lado, o simples fato de sentir a coisa organizada e o rendimento em campo é motivante, além de saber que posso estar aprendendo algo que se aplicará depois no em Floripa e no Desterro.

desterrorugby.com.br: O nível de jogo é muito superior ao Brasil?
Nino: Em termos sim, pois como mencionei, a infra-estrutura prestada para os jogadores é praticamente completa indo desde três campos (de treinamento e jogos) até sala de musculação, serviço médico e apartamentos para os jogadores profissionais contratados, etc, e isso se reflete no rendimento do time. Fora isso, existem jogadores da minha idade que começaram a jogar com 5 anos de idade e tem, no mínimo, 10 anos a mais de rugby do que a maioria dos jogadores brasileiros, ou seja, o entendimento do jogo e como ele flui é mais apurado .

desterrorugby.com.br: Na sua opinião, qual a grande diferença entre o rugby dos dois países, tanto dentro quanto fora de campo?
Nino: Primeiramente o pessoal aqui não sabe fazer festa como em Floripa!!! Pelo fato do rugby ser um pouco mais profissionalizado, geralmente não existe uma afinidade muito grande com o clube como nós temos com Desterro, por exemplo. O laço existente entre os jogadores é na grande maioria das vezes muito mais fraco, coisa que me causou muita estranheza no princípio. No clube aonde jogo, a coisa ainda é um pouco melhor, pois temos jogadores que são “cria da casa” e defendem a mesma camisa há décadas, além disso, existem alguns estrangeiros além do Nino que também fazer uma boa bagunça. Em termos técnicos pode-se dizer que eles são mais disciplinados, ponto importantíssimo na prática que qualquer esporte em termos competitivos, mas menos criativos. Mas para mim, o ponto de maior disparidade entre o Brasil e os clubes alemães é a importância que eles dão as classes de base. Aqui temos cerca de 150 crianças em praticamente todas as faixas etárias a partir dos 5 anos de idade e, visto que na mesma cidade existem 6 clubes grandes com o mesmo número de crianças, pode-se imaginar o que o futuro do rugby alemão promete.

desterrorugby.com.br: Em que divisão o seu time joga? Os campeonatos são nacionais ou regionais?
Nino: Na verdade existem os campeonatos da primeira e segunda divisões, sendo que existe somente o regional para a segunda divisão. Para a primeira são realizados o campeonato regional (Pokalmeisterschaft de Baden-Würtemberg) e o nacional (Bundesliga), sendo que os mesmos acontecem paralelamente. Fora isso existe o campeonato alemão de seven-a-side. Eu sou titular do segundo time e reserva do primeiro, sendo que a maioria das vezes que joguei no primeiro foi pelo regional, jogando somente 3 vezes no nacional. Os campeonatos acabaram recentemente e fomos campeões com o segundo time, campeões regionais com o primeiro e ficamos em segundo no nacional.

desterrorugby.com.br: Você já jogou em outros países da Europa?
Nino: Sim, quando jogava em Freiburg, fizemos alguns amistosos na Suíça e na Franca, países cujas fronteiras localizam-se relativamente próximas da cidade de Freiburg.

desterrorugby.com.br: As pessoas em geral aí na Europa têm algum conhecimento sobre o rugby no Brasil?
Nino: Definitivamente não, na verdade acham um despautério um brasileiro jogar rugby. Somente alguns jogadores que já participaram do mundial juvenil sabem que no Brasil também se joga rugby e não somente futebol. Mas espero que essa situação mude o mais rápido possível.

desterrorugby.com.br: Onde e como ocorreu seu primeiro contato com o rugby?
Nino: No Brasil, já havia visto uma galera meio estranha correndo nas rendeiras, depois o Marcão da Barra (imagino que nem todos saibam quem seja) que jogava vôlei comigo na Barra, me levou para um treino na Joaquina e esse foi o começo do fim!! Na Alemanha a coisa aconteceu na verdade por causa de uma pequena tragédia. Quando vim para cá pela primeira vez, morei em Freiburg e estava extremamente decepcionado, pois esperava encontrar muito mais rugby do que realmente existe aqui. Todavia dei sorte de me mudar para perto do único campo de rugby da cidade (na real não foi exatamente por acaso!!), mas não conseguia entrar em contato com qualquer pessoa do time, pois tratava-se somente do campo de jogos. Até que um dia a sede do clube pegou fogo, só então que o presidente do clube apareceu para ver o tamanho do estrago que tinha sido causado e que então consegui estabelecer o primeiro contato com o time. Mas que fique bem claro que não fui eu que ateei fogo no prédio!!!! Com o clube no qual jogo agora já tinha estabelecido contato enquanto morava em Freiburg, pois aqui foi realizada uma rodada dos jogos classificatórios para o campeonato europeu de seven de 2000, quando vim para Heidelberg pela primeira vez.

desterrorugby.com.br: Você participou da fundação do time feminino do Desterro assumindo a função de treinador. Como foi essa experiência?
Nino: Foi antes de tudo um grande aprendizado para mim e indiscutivelmente gratificante, apesar de no início ter extrema dificuldade com o trato com as meninas (pois até então só havia treinado juvenis e crianças) e com as críticas fora de campo (pois, estaria desperdiçando meu tempo segundo algumas opiniões). Porém, pelo fato de ter treinado não somente o time do Desterro, como também o da Barra e o da Ufsc, tenho condições de falar que no geral as meninas são mais organizadas e disciplinadas que os homens, fator extremamente relevante num esporte no qual não se tem apoio externo algum. Por outro lado dar treino para mulheres é um excelente laboratório para qualquer psicólogo que deixa o Big Brother no chinelo, ou seja, as relações entre si e com o treinador são muito mais frágeis e por esse motivo deve-se ter muito mais tato, coisa que eventualmente atrapalha o progresso do time.

desterrorugby.com.br: Atualmente qual a sua ligação com o Desterro?
Nino: A minha ligação com o Desterro pode ter se alterado um pouco desde que deixei o Brasil, mas somente no sentido de ter ficado mais forte. Sou seguidor das palavras que o Miguel um dia disse, ou seja, posso jogar em qualquer clube, em qualquer país, mas a verdinha estará sempre vestida por baixo quando entro em campo. No Desterro quero jogar até não poder mais (o que não está tão longe assim... risos...) e no Desterro quero que meus filhos e filhas, netos e netas aprendam o rugby.

desterrorugby.com.br: O principal motivo para você estar na Alemanha são os estudos. Quanto tempo falta para acabar a sua faculdade?
Nino: A princípio estou voltando para o Brasil em definitivo no meio de 2005, ou seja, para o brasileiro do 2005 estarei pronto para vestir a camisa verde!!

desterrorugby.com.br: Você vem para o Brasil assim que terminar, ou pretende continuar na Alemanha?
Nino: Essa é uma ótima pergunta, como disse, a minha pretensão é voltar o quanto antes, pois estou com o saco cheio de viajar e ter que mergulhar em lagos ao invés de nas águas cristalinas da minha amada Barra da Lagoa. Mas naturalmente tudo dependerá das oportunidades que surgirão no momento em que tiver que tomar essa decisão. Levo em consideração a possibilidade de ter ficar aqui um ou dois anos depois de me formar, mas certo é que mais cedo ou mais tarde estou voltando para o Brasil e para Floripa.

desterrorugby.com.br: Mande um recado para os seus amigos do Desterro.
Nino: Bom, eu já tive que dar alguns discursos não somente para explicar aos leigos o que é o rugby, as diferenças e peculiaridades comparado com outros esporte e até palavras para motivar jogadores(as) que, apesar de estarem todos(as) doloridos(as), tiveram que entrar em campo a 150%, ou seja, transmitir o que sinto pelo rugby e pelo Desterro seria quase impossível com palavras e se fosse seria coisa de páginas e páginas. Mas acho que todos que já entraram no campo, vestidos com a camisa do Desterro, sentem um choque vindo dos ossos quando o assunto é o Desterro. Eu não imagino como teria sido a minha trajetória se não fosse desterrense e tenho certeza que o fato de ter ajudado a fundar esse time, estar em campo desde a primeira derrota contra o Curitiba, na primeira vitória também contra o Curitiba, primeiro campeonato brasileiro, na fase mais difícil, na qual o Desterro quase se desmantelou e até hoje, ajudou na formação da pessoa que eu sou hoje. Saber que com a minha ajuda, aquela brincadeira que ficou séria resultou na formação de jogadores e pessoas de caráter como os mais jovens, que jogam hoje é realmente gratificante, e eu acredito que esse sentimento é compartilhado por aqueles que levam esse time-família a sério.
Uma das coisas positivas que percebi aqui, é que todos os times, independentemente do nível em que jogam e há quanto tempo foram fundados, todos percorreram a mesma trajetória até atingirem o estado que possuem hoje. Naturalmente, já troquei uma idéia com a velha guarda do clube daqui, e a estória foi exatamente a mesma. Resumindo, o que o Desterro está passando agora é exatamente o correto, estamos no caminho certo para construirmos algo ainda maior, mas sabemos que a responsabilidade é única e exclusivamente nossa, reclamar e criticar a falta de apoio é uma ótima bengala para a estagnação, não temos como contornar isso e nem esperar que a solução simplesmente apareça, temos que correr atrás dela e tacklea-la, e como time, não somente meia-dúzia!! Existe o suficiente para fazer, deste a organização, treinamento, financeiro, expansão do esporte, enfim... cada um tem que fazer a sua parte. Assim tenho certeza que em pouco tempo, estaremos sentados na tribuna do nosso clube, malhando o pau na molecada (que até lá já não serão mais moleques) e sacaneando as besteiras que eles farão (mais ou menos isso, Marcelo!!), mas com o sentimento de ter construído algo que não tem como ser desfeito. Repetindo as palavras do Orlando, o rugby é uma seqüência de sacrifícios e renúncias com grana, mulher, marido, namorado(a), trabalho, físico, estudo, saúde, enfim... mas um sacrifício que é recompensado durante os poucos segundos que você segura a bola num jogo, quando você faz um try ou quando você trava o abdômen de tanto rir num terceiro tempo com seus irmãos de time. E para finalizar filosofia, espero compartilhar com todos os desterrenses quando digo que podemos nos considerar pessoas de imensa sorte por ter encontrado o rugby e o DESTERRO no nosso caminho e podermos dizer que somos jogadores de rugby, pois sabemos o que isso significa.

Abraço a todos!!!

Por Ricardo Zimmermann e Patrícia Wielewicki

 
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