|
desterrorugby.com.br: Onde e quando você começou a jogar rugby? Caçote: Eu aprendi a jogar rugby em Portugal em 1975. Eu tinha 11 anos e comecei a jogar no Belenenses, clube perto de Lisboa, levado por um amigo.
desterrorugby.com.br: Em quais times você jogou antes do Desterro? Caçote: Depois do Belenenses, joguei no Cascais passando por todas as categorias até os 18 anos. Já no Brasil, fiquei dois anos sem jogar, até que ingressei no time universitário da Medicina em São Paulo, onde joguei de 1986 a 1989.
desterrorugby.com.br: Quando você veio para Florianópolis? Caçote: Eu vim para Florianópolis assim que me formei, em 1989.
desterrorugby.com.br: Como surgiu a idéia de montar um time de rugby em Florianópolis? Caçote: Surgiu justamente da vontade de jogar, sendo que não existiam times de rugby no sul do Brasil. Falávamos muito sobre rugby, eu, o Juan, Guilherme, Roberto e Rogério (futuros jogadores do Desterro), juntamente com o pessoal que trabalhava no Banana's (bar na Lagoa da Conceição de propriedade do Miguel na época), e eles foram realmente as pessoas que botaram "pilha" para que o time começasse. Eles colocaram mais pilha que eu. Eu já tinha a pilha guardada, e eles ligaram ela. Aquele foi realmente o ponto inicial para que a coisa acontecesse.
desterrorugby.com.br: Quais foram as maiores dificuldades no início? Caçote: As maiores dificuldades foram culturais. Por parecer uma coisa esquisita, ninguém entendia bem o que nós estávamos fazendo, a gente era meio discriminado. Por consequência disso existia a falta de campo, falta de patrocínio e a falta de entendimento de que aquele era um esporte como todos os outros que precisa de um lado profissional externo ao campo.
desterrorugby.com.br: Como vocês fizeram para conseguir mais jogadores para o time? Caçote: No início foi de boca em boca, amigo chamando amigo, depois houve um trabalho maior, já prestes a montar o clube, começamos a fazer um trabalho na Escola Técnica Federal de Santa Catarina (hoje CEFET). Os jogadores iam de sala em sala de uniforme convidando as pessoas a participarem do time.
desterrorugby.com.br: Como eram os treinos no início? Caçote: Nos primeiros treinos não tínhamos campo, então treinávamos na praia. Não tínhamos horários disponíveis, por isso treinávamos de noite. A Joaquina na época era a única praia com iluminação e era ali que nos reuníamos das seis às dez. Treinamos na praia durante três anos aproximadamente, depois passamos para o campo do Seu Mercindo, e nos finais de semana no Vassourão, que era um campo que ninguém brigava com a gente... Depois veio a fase da Escola Técnica que representou uma grande subida na escala.
desterrorugby.com.br: Você imaginou que o Desterro duraria tanto tempo e chegaria onde chegou? Caçote: A expectativa sempre foi essa. Era uma coisa para não acabar. Não era apenas uma brincadeira, mas um trabalho sério.
desterrorugby.com.br: Como você se sente ao ver que aqueles meninos que jogavam com você na praia hoje são adultos e continuam jogando rugby graças a sua iniciativa? Caçote: Me sinto muito orgulhoso. Não um orgulho pessoal, de mim, mas um orgulho deles. De ver como é importante o esporte, da forma que eu procurei passar para todos, e vejo que para alguns deles eu consegui passar essa mensagem, de que o rugby não é só um esporte, como a maior parte das pessoas pensam, que olham e acham que é porrada. Sejam homens ou mulheres jogando, esse esporte representa muito mais do que isso, e nós que jogamos sabemos disso. Quando a gente está em campo, quase todos os minutos do jogo, pensamos em desistir, estamos sempre lutando contra nós mesmos. O rugby mais do que outros esportes, sempre te exige mais do que você pensa que ele vai exigir. O Jogo é isso, sempre procurando a idéia do conjunto. Tem um lado social muito forte, um lado educativo, de formação de personalidade e caráter muito forte, que foi desde o início o que eu sempre busquei.
desterrorugby.com.br: No ano passado você recebeu uma homenagem em Lages - SC, dando nome a um torneio de Seven. Como foi? Caçote: Foi chocante. Foi emocionante para mim. Foi a afirmação de que tudo que eu fiz valeu a pena.
desterrorugby.com.br: Quais foram os momentos mais marcantes da sua vida no rugby? Caçote: Em Portugal, o momento que mais me marcou foi uma passagem que eu tive pela Seleção Portuguesa Juvenil. Eu tinha mais ou menos 16 anos e foi uma coisa muito legal. No Brasil, com certeza, foi o título brasileiro que nós conquistamos em 1996 contra o Bandeirantes. Nós fomos para São Paulo como desconhecidos e totalmente desacreditados. Mostramos que com muito trabalho e muito esforço construímos um time forte em muito pouco tempo. Nós treinávamos praticamente todos os dias, e apesar das reclamações das nossas mulheres (risos), valeu a pena. E eu não posso esquecer da nossa viagem para a Argentina em 96. Jogamos de igual para igual contra times com muita tradição. Eles não acreditavam que muitos dos nossos jogadores tinham apenas um ou dois anos de rugby.
desterrorugby.com.br: Qual a sua relação com o rugby hoje? Caçote: Saudade. Apesar de não estar participando do time de uma forma ativa, eu estou sempre por perto, pois os laços que nós criamos duram para sempre. Continuo gostando de rugby como sempre e estou sempre acompanhando os jogos do Desterro e também os que passam na TV. Durante toda minha vida eu passei por fases em que tive de me afastar, mas como das outras vezes, eu pretendo voltar e participar de alguma maneira.
Por Ricardo Zimmermann e Patrícia Wielewicki
|